Tirinha #36 | Ostracismo

Na casca do ovo | Tirinha #36
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Top 5 medos quando criança: #1 Ebola

#1 Ebola. A raça humana já passou por muitos medos infundados. É como se a incômoda certeza da morte que temos individualmente também existisse em escala global. E como num épico bíblico, a humanidade está sempre buscando formas trágicas de perecer. Dilúvio, lepra, peste negra, gripe espanhola, cataclismo nuclear, invasões alienígenas, AIDS, gripe aviária, queda de meteoros gigantes, etc. Há sempre um medo presente e nos resta torcer que um Bruce Willis esteja sempre lá para detonar as bombas que salvarão a Terra do próximo Armageddon. Na minha infância, o grande vilão que colocava em risco a minha extinção (e a dos meus familiares) era o vírus Ebola. Tratava-se de um mal que vinha da África e fazia você sangrar até morrer. Até aí tudo bem, mas o grande terror é que o sangue saía pelos poros! O vírus não tinha cura e você morria em alguns poucos dias. Ou seja, não era nem rápido demais, nem lento demais. Era na medida. O suficiente para que você sofresse o máximo possível. É o pavor otimizado em favor do fim.

Roupa protetora
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Top 5 medos quando criança: #2 Virar mendigo

#2 Virar mendigo. “Tá vendo aquele homem ali puxando uma carroça?”, “Qual?”, “Aquele barbudo horroroso”, “Tô vendo”, “Sabe por que ele está fazendo isso?”, “Puxando a carroça?”, “É”, “Por quê?”, “Porque não quis fazer o dever de casa quando estava na escola”, “Sério?”, “Sério, e se você não estudar vai ficar exatamente igual a ele quando estiver mais velho”, “Igual?”, “Igualzinho, com direito à sífilis e tudo mais.” Taí um medo que formou parte da minha personalidade. Desde muito pequeno me diziam que estudar evita puxar carroça, ser feio e barbudo. Acho que foi por isso que estudei até ter alguma certeza de que não seria mais um carroceiro. E, embora esse medo tenha ficado para trás (como todos os medos desse Top 5), até hoje me sinto na obrigação de estudar até o último grau da Academia. Vai que sucede algum azar inesperado. Por falar em permanência de medos, esse medo de virar mendigo está relacionado a outro ainda maior: o de ficar órfão. No entanto, o medo de perder os pais não entra nesse Top 5 exatamente por não ser exclusivo da infância, mas um medo que nos acompanha por toda a vida.

Eu mendigo
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Top 5 medos quando criança: #3 Bomba atômica

#3 Bomba atômica. Talvez seja porque na infância peguei parte da Guerra Fria, mas o medo de ser atingido por uma bomba atômica me perseguiu por alguns anos. E era um temor duplo, pois havia duas formas de morrer por causa de uma bomba atômica. A primeira era mais direta e relativamente indolor. Refiro-me a estar no epicentro da explosão. É tudo tão forte e rápido que você nem sente que morreu. Tipo, você está comprando uma coxinha na cantina do colégio e do nada tudo (inclusive você e seus parentes mais próximos) desaparece. Embora rápido como um apagar de luz, morrer assim deve ser incrivelmente traumatizante caso exista vida após a morte. Nesse caso, torçamos que não! Já o segundo modo de morrer com uma bomba atômica se dá indiretamente, por meio da radiação que pairaria nos arredores do ataque por muitos anos. Provavelmente você morreria com algum câncer estranho (tipo no baço) e contaminaria seus genes, que seriam repassados para as próximas gerações. Se já é meio chato morrer, imagine então morrer e ser o causador da morte dos seus três filhos, nove netos e vinte e sete bisnetos? Tudo bem que o próprio ato de ter filho é, de certo modo, matá-lo. Afinal, nascer nada mais é que entrar na fila do cemitério. E às vezes a fila está enorme e ainda fazemos a besteira de tentar furá-la. Por isso evito bungee jumps, mas isso já é outro post.

Bomba H
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Top 5 medos quando criança: #4 Areia movediça

#4 Areia movediça. Existem dois grandes fatores que fazem da areia movediça algo tão assustador. O primeiro é que ela parece uma grande piada de mal gosto da natureza. Afinal, qual a real função da areia movediça para o meio ambiente? Nenhuma! É só uma peça que a natureza resolveu pregar em nós. Tipo, você está andando tranqüilamente na floresta mais próxima da sua casa (colhendo amoras ou algo similar) e de repente sente o chão afundar sob seus pés! Aí você tenta sair, mas quanto mais você se mexe, mais afunda! Aí é que entra o segundo fator que faz com que a areia movediça esteja no meu Top 5 de coisas que eu tinha medo na infância: a morte que ela causa é incrivelmente lenta. Você leva uns 40 minutos pra afundar por completo e depois uns 12 para que a lama preencha todo o espaço dos seus pulmões onde originalmente deveria conter ar fresco.

Kelminha em apuros
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